quarta-feira, 31 de maio de 2017

sistema circulatório

Cortaram-me a veia poética
e escorreu-me poesia
da ferida.

Fiquei só com a artéria,
espero
que essa ninguém corte...

quarta-feira, 24 de maio de 2017

douta gravidade

Só mais uma folha que cai;
ciranda na massa de ar estanque,
criando o vento
no movimento
da queda.
Já tem poiso previsto,
calculado,
entre a distância do galho seco
e o intervalo
de duas pedras da calçada.
só mais uma folha
nesta verticalidade
de pó...

quarta-feira, 17 de maio de 2017

a última palavra

É minha,
recordo o eco da minha voz
a propagar-se no silêncio vivo,
atroz e altivo,
ou só atroz;
sozinha.

É a última, a que me pertence,
com ou sem razão,
mais que certo ou errado
não parte para nenhum lado,
sempre à mão,
ou assim eu o pense.

Facto do ego,
a última palavra dita,
é tanto vitória como derrota,
nota:
tanto se segreda como se grita,
calha ao mudo e ao cego...

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Erosão

A força do grito
dispensa do eco a presença,
o ferimento monocórdico
e insidioso.

A lágrima
cava mais um sulco no rosto
enrugado,
na profundidade do grito.

A mágoa,
da nascente à foz,
corre na cama pedregosa,
aluvião.

Desgaste a desgaste
haverá quem não se arraste?
Tudo
é erosão.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Pólos

Como tudo aquilo que cessa
por sua vez também principia,
brindo aos começos neste dia!
Viva, então, o que se começa!

Tudo finda, ainda que não pareça,
se existe acaba, expia.
O infinito é clara utopia,
o que me atormenta é a pressa.

Dentro destes dois espaços
a vida corre, salta, avança
como um rio cheio de braços.

No fim tudo pára e se alcança,
todos os momentos são escassos...
É a nossa feliz herança.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

o que se reflete

No espelho o que se reflete
é um momento
que não se repete.

Tão transparente
como o passar do tempo
e cada momento é diferente.

Reflete,
cogita,
dedica-te ao pensamento
que na tua acção se intromete;
medita
e muda de comportamento...

Reflete e, ao refletires,
agilizas e flexibilizas
as vezes precisas,                             sem te partires...
                                                                                                           

Paródia Negra

Hoje estou sem palavras,
levou-as a chuva que cai
soturna no chão pardacento,
levanta-se lama sem lavras
e nenhum pensamento sai:
não sai nenhum pensamento.

Encontro-me só nesse vazio,
exorcizado, sem ponta de alma,
sem ponta por onde me pegue
e tudo em redor está sombrio,
ainda que esta estranha calma
em vez de abraçar, a renegue.

Nesta noite eterna e fria,
sobrevoam-me corujas, morcegos
e esses noctívagos me acarinham.
Tanto de noite como de dia
andam todos perdidos e cegos
sem saber que assim caminham.

Encontro uma vil ternura
neste ermo sem perdão
no qual acho um lar, e conforto,
cá a vida é clara e pura
e tudo é paz e comoção;
ainda que viva, estou morto!!!