quinta-feira, 27 de abril de 2017

leitura de almas das mãos

Tens um caminhar errático,
andas pela sombra,
ou sob os beirais das casas,
a fugir aos pingos do aguaceiro.

Na tua névoa, um lado prático,
que se ombr(ei)a
com as complicadas asas
com que voas o dia inteiro.

Quando penetro no teu olhar,
perscruto-te a gentil alma,
num movimento inquieto.
Sondo na íris nera o feitio.

Desarmada, desvias-te devagar
prolongando, com calma,
este contacto incorrecto.
Feito, imperfeito, gentio.

Procuras os olhos meus
nesse caminho errado, revisto,
em que andas por brasas
e pegas-me, do nada, pela mão!

E eu, que leio os olhares, os teus
passos sigo, não resisto;
andamos à chuva, marés vazas,
nos braços da tua mão.

grafite

No corpo do que não se acha,
que, talvez, o mundo imite;
não há, nele mesmo, borracha
maior que a própria grafite.

Fora tudo movido a carvão,
antes do aroma a petróleo
e a calçada antes do alcatrão,
a grafite antes da tela a óleo.

Há todo o espaço neste minério:
o vazio, o cheio, o curto, o comprido;
há o cómico tanto quanto o sério,
a razão do sonho, o chegado, o ido...

Coisa antiga e actual
que cheira a escola,
a juventude, a ideal
a riqueza e esmola.

Por ser apenas ferramenta
(ninguém o admite)
não há sombra mais cinzenta
do que a da grafite.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Agonia

Absinto a tua falta,
de qualquer coisa em ti que me fazia
maior...
e que esse licor me faz tão pequeno,
me traz uma agonia:
puro veneno.