terça-feira, 18 de outubro de 2016

O lado sujo

Não duvideis, já se disse tudo sobre a felicidade.
Repito.



Na luz ao fundo
dum túnel escuro
está nada mais do que essa luz.
O túnel, sim, é meio-mundo,
impuro,
que, de tudo um pouco, se reproduz.

Se a obscuridade
for o sol do dia-a-dia,
nela poderás ver sombras, relevos...
Factos antigos, novidades,
tristeza e alegria,
quatro folhas em todos os trevos.

Na treva há isto tudo,
tudo igual!
Se for colada, à pele com rugas,
nada tem de estudo,
se a treva for o normal:
prisões, liberdades, grilhões, fugas...

Acende-se dentro dum corpo cheio,
capaz,
uma tristeza infinita...
Infeliz não é o recheio
de um triste cabaz,
apenas triste, acredita!

Porque os entes são confusos:
a frustração, a dor, a tristeza,
não são infelizes!
Apenas adversos e escusos,
contrários ao ideal de beleza,
deslizes...

Até a dor é feliz,
a perda, feliz é,
a derrota traz a felicidade!
Tudo é aprendizagem de aprendiz,
pelo próprio pé,
seja qual for a idade.

E tropeçamos na escuridão das cavernas,
a caverna é o lado de fora,
caindo todas as vezes;
esfolamos dos joelhos às pernas
entre o ontem e o agora,
sendo estrelas no firmamento ou rezes!

Mas é na força desse passo,
no sorriso que construímos diariamente,
que a felicidade se vive!
No calor de um abraço,
num beijo quente;
nesse caminho sem luz em que sempre estive.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

A sombra de dúvida

A sombra da dúvida é branca,
já que o objecto é escuro;
bichinho medroso
que destrói as acções,
desconstrói as iniciativas...
A sombra revela a sua presença,
leve como um fantasma,
com sorriso magro,
estéril e infecundo...

A dúvida, hesitação.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Infecto

Quando cai o corpo inválido na terra,
com que força sozinho se levanta?
Combalido com fragilidade tanta
que em si mesmo se encerra,

se doente e doído emperra
e a voz não sai da garganta,
parece curta, muito curta a manta,
desterrada, destroço de guerra.

Um íman que prende à cama
na qual o corpo ancorado
perde o brilho e a chama...

Um sol que não nasce, fechado,
com sabor a fel e a lama,
escuro, inerte, lento, parado.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Matar saudades

matei a saudade à pedrada,
essa gémea de Golias.
Fiz de David...
Desde então,
não consigo deixar de achar
uma pedra
o teu sorriso,
a tua voz,
o teu olhar...