terça-feira, 30 de agosto de 2016

Gravuras

Os pés descalços parecem sujos,
assim assentes na pedra fria
à entrada da morada, em cujos
mesmos pés dão entrada dia-a-dia.

No retrato a branco e preto
há esboços de sorrisos forçados,
o ar desusado e incompleto,
trabalhos a que não estão habituados.

E há um cheiro pútreo no ar,
ranço que se respira sem se sentir
e um frio que não entra plo calejar
que a pele não deixa de curtir.

Cinco décadas após
até parece mentira
o que passaram os meus avós.
Três mundos os partira...

Ergo Ego

Eu pela minha pessoa falo,
na primeira pessoa do singular,
é um mudar de lugar
falar de mim com intervalo.

Nesta distanciação que faço,
descolo-me tanto, por natureza
que não tenho a certeza
de existir esse espaço.

Eu refere-se a mim
como coisa, como objecto,
ao que tenho de concreto;
ao limite, ao tangível, ao fim.

É um hábito, uma veste
que tenho por acidente
que digo da minha mente
ainda que de mim nada reste.

Eu, é determinante,
pronome que determina...
Como é que o EU se ensina?
A cada detalhe, a cada instante...